• Cristalwolf Lobazul

Adeus azul - Ato 1

O desespero de anos de clausura tornaram-se seu combustível enquanto corria. Ela queria gritar, mas só podia correr. Ela queria avançar em algo e estraçalhar suas vísceras, mas só podia correr. O ar entrava calcinante em suas narinas. Mordeu a língua ao pendê-la para fora da boca. Nunca correra tanto na vida. A sensação era maravilhosa mas também terrível.

As árvores passavam por ela, sempre iguais, sempre negras. Longos troncos de pinheiro perene na floresta noturna. Não havia lua no céu, e o brilho nas estrelas era ínfimo. Ela corria. As marcas de seus coxins afundados no solo úmido e pegajoso.


Turbilhões de pensamentos passavam pela sua cabeça. Um furacão de lembranças boas e ruins misturados num imenso molho ácido que desfragmentou seu coração. Sentia que a cada passo que dava estava mais longe de si mesma. A cada passo se tornava algo totalmente desconhecido.


Ela correu pela floresta noturna. A brisa da noite a balançar seus pelos empastados de sangue. O vento assobiava pelas flechas cravadas ao longo de seu corpo. As lágrimas já não corriam de seus olhos, haviam se secado de chorar tantos dias a fio.


Já não sabia onde estava, nem que ponto da floresta chegara, nem para onde estava indo. Aos poucos diminuiu as passadas. O vigor estava no fim embora seus desespero a mandasse correr para mais longe. Ela queria uivar, mas tinha medo da censura. Ela sabia que estava sozinha, mas ainda assim seus anos de adestramento a mantiveram quieta. Ela tinha medo, muito medo, de ser quem ela realmente era.


Foi quando percebeu que não precisava mais correr. Não havia ninguém em seu encalço. As chagas doíam e ela achou que a dor nunca mais fosse passar. Estava no escuro e estava sozinha. Ela se encolheu nas trevas. E chorou pelo que pareceram ser dias. Não sabia mais quem era, não tinha uma história uma identidade. Aos poucos seu coração foi consumido pela escuridão. Aos poucos tornou-se parte dele.


— Não precisa disso.


Ela ergueu o focinho, franziu o cenho para a voz. Quando se está no escuro por muito tempo, qualquer resquício de luz pode mesmo incomodar.


— Não precisa disso. - Insistiu a voz com uma calma solene.


Estava cega pela dor, mas a voz a guiou pelo nevoeiro. No começo viu um pontinho alaranjado esperando por ela na orla da floresta, aos poucos ele tomou a forma de uma simpática raposa.


— Eu não sei do que preciso. - Ela disse, ofegante.

— Você precisa apenas conversar. - Respondeu a raposa. - Venha e me conte o que a vida aprontou dessa vez.


Eles caminharam juntos por terrenos que eram desconhecidos para ela. Passaram por praias, por centros urbanos, por desertos, por pântanos… E quando voltaram para a mesma floresta, ela percebeu que já não haviam flechas em suas costas, nem feridas em sua pele, nem sangue demarcando cada passo. Apenas cicatrizes que já nem doíam mais.


Mas acima de tudo, ela descobriu algo ainda mais interessante e assustador: A chuva, as lágrimas e as intempéries, as feridas e o sangue lavaram a cor azul de seus pelos revelando uma pelagem nova, negra como a noite e brilhante como as estrelas. E agora cabia a ela aceitar ou não a verdade.

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