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Meu rabo e eu

Updated: Jan 16, 2019

Eu andava com um rabo de pelúcia pendurado na calça rente a coluna vertebral. Não era pra chamar a atenção, não era pra insinuar nada, era apenas porque me fazia bem. Eu sentia como se fosse uma extensão do meu corpo e eu tenho isso desde que tive consciência da minha existência, resumindo, nos meus primeiros anos de vida.

Eu sempre tentei não me importar com o que as pessoas pensavam de mim. E andava confiante com ele (meu rabo) pra cima e pra baixo, e aprendi muitas lições valiosas usando ele. A primeira delas é: Como um simples objeto, que não atrapalha a vida de ninguém pode causar tanto incômodo e tanta negatividade apenas por ser usado por alguém.


Na época eu trabalhava como estagiária em uma faculdade famosa da cidade e me foi proibido usar o rabo em períodos de trabalho. Por aí tudo bem, direito da empresa que seus funcionários vistam uniformes e tal. Mas então me proibiram de usar durante as aulas também, período em que eu não estava mais trabalhando. Isso me fez refletir bastante na questão de regras de vestimenta social.


Quando você é mulher e trabalha numa loja de moda, seja roupa, calçados ou outro segmento em que você tem que estar de “boa aparência”, você precisa usar saltos altos o dia inteiro e não lhe é permitido sentar pra descansar. O salto é um adereço, assim como meu rabo. Mas ao contrário dele, vai causar um imenso desconforto físico pra quem usa o salto. E mesmo assim é um acessório requerido para se trabalhar nestes segmentos.


Do mesmo modo não é permitido aos atendentes de caixas de bancos terem tatuagens expostas, pintarem os cabelos de cores diferentes das “aceitáveis”. Coisas que não fazem a menor diferença na vida dos outros, mas que faria com que seu usuário se sinta bem consigo mesmo. Pra que tanto desconforto com pequenezas da vida alheia?


Outra lição importante que aprendi com o uso do rabo e que me fez parar de usá-lo: A perversão das pessoas, principalmente dos homens. Por mais que meu rabo de pelúcia ficasse pendurado no passante da calça, por mais que fosse um objeto insignificante, muitas pessoas começaram a achar que aquele objeto lhes dava o direito de olhar para minha bunda e fazer comentários maliciosos de cunho sexual.

Eu pegava muito ônibus na época e além dos comentários maliciosos tinham as mãos bobas. Chegou num ponto que passei a ter medo de usar meu rabo de pelúcia. Daí uma coisa que me fazia sentir bem começou a me fazer mal. E eu comecei a ter medo de sair na rua, de ser eu mesma, de ser mulher, de ser tudo o que me compunha como ser.


E pensei em como é triste, por exemplo, pra quem faz uma cirurgia de mudança de sexo e passa por tudo isso e muito mais ao ponto de ser agredido de forma violenta. O meu rabo eu pude tirar, mas e quem faz uma tatuagem no braço? E quem faz uma mudança corporal grande? Como ficam essas pessoas?


Por que as pessoas continuam direcionando seu ódio pra coisas tão irrelevantes pra a vida delas? Pra que gastar toda essa energia sendo negativo, sendo violento com o que faz bem para o outro?

Pessoas ruins assim são aquelas que no fundo também gostariam de serem corajosas o suficiente para usar ou ser o que lhes faz bem. Mas que não têm o mínimo de coragem pra isso, então elas se sentem bem atacando o outro. Fazendo ele descer ao mesmo nível de insatisfação.


Então cheguei ao ponto de selecionar bem quem andava comigo. Eu parei para pensar e encontrei tanta gente tóxica que estava participando da minha vida. Gente que sempre tenta te puxar pra baixo, que nunca está feliz com o seu sucesso. Dentre estas pessoas estava gente da família, gente muito próxima, que nunca conseguiu ficar feliz com minhas realizações pessoais apenas porque frustraram as expectativas deles para comigo.


Meu rabo me ensinou muitas lições ao longo dos anos. Ainda não me sinto bem usando ele como antes, ainda sinto medo em usá-lo para sair na rua ou coisa assim. Então ele está guardado aqui em casa onde eu possa vê-lo e lembrar de tudo que aprendi.

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